Censo Pescarte faz raio-X da pesca artesanal e aponta caminhos para o futuro
Estudo inédito detalha trabalho, moradia e perfil dos trabalhadores, projetando equidade e valorização dos saberes.
Os primeiros dados do 2º Censo Pescarte (2022-2023) trazem um raio-X detalhado da realidade socioeconômica das comunidades de pesca artesanal da Bacia de Campos. Em elaboração no relatório analítico “Censo e realidade socioeconômica das comunidades de pesca artesanal: uma leitura pedagógica dos dados do Censo Pescarte 2023”, conduzido pelo pesquisador Geraldo Timóteo, coordenador técnico do PEA Pescarte, e pelas pesquisadoras Denise Costa e Karina Ritter, o levantamento mostra que a pesca artesanal é um modo de existir em que trabalho, família, território, moradia, identidade, renda e expectativas caminham juntos.
O estudo revela um enraizamento territorial, com a maioria das famílias vivendo em casa própria; no entanto, a maior parte delas atua por conta própria, lida com rendimentos baixos e oscilantes, e quase metade das moradias quitadas não possui escritura formal, gerando insegurança jurídica.
A pesquisa também aponta que a cadeia da pesca é atravessada por desigualdades internas de cor, gênero e acesso aos meios de produção. Embora a base do setor seja majoritariamente de pretos e pardos, esse grupo ainda ocupa pouco espaço em posições de comando. No recorte de gênero, a presença feminina se destaca no beneficiamento, no apoio e no trabalho doméstico, mas a remuneração das mulheres permanece concentrada nas faixas mais baixas.
Outro ponto central é a mudança no perfil dos trabalhadores. A herança familiar e a transmissão dos saberes tradicionais continuam vivas, mas dividem espaço com a chegada de pessoas sem histórico na pesca. Esse cenário indica a necessidade de criar novos caminhos de formação e capacitação que acolham os novos trabalhadores sem perder o conhecimento ancestral.
Por fim, ao comparar o passado com o futuro, o levantamento mostra uma comunidade que, apesar dos desafios, mantém a esperança: a maioria dos entrevistados acredita em dias melhores. O dado revela que as famílias projetam possibilidades reais de mudança, confirmando o papel do Censo como ferramenta para fortalecer a organização comunitária, o planejamento produtivo e a construção coletiva de um futuro com mais equidade.
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